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Guia BRCGS

BRCGS e o Benchmarking GFSI 2024: O Que Muda nas Auditorias a Partir de Agosto (e Como te Preparares)

CQR Catarina Quina Ribeiro Auditora, consultora e formadora
9 min de leitura

A partir de 10 de agosto de 2026, as alterações introduzidas nos position statements da BRCGS passaram a ser aplicáveis a todas as auditorias realizadas nessa data ou posteriormente.

Esta atualização resulta do alinhamento com os GFSI Benchmarking Requirements 2024. Não estamos perante uma nova edição integral das normas. Estamos perante alterações e clarificações que passam a fazer parte dos critérios auditáveis aplicáveis a determinados referenciais BRCGS.

Se a tua empresa está certificada, ou se está a preparar a certificação, precisas de trabalhar com os documentos atualizados. Não basta conhecer a versão da norma. É necessário analisar os position statements aplicáveis ao teu referencial e verificar se o sistema implementado responde aos novos requisitos.

Neste artigo, explico o que mudou e como podes preparar a tua organização.

O que são os position statements da BRCGS?

Os position statements são documentos publicados pela BRCGS para clarificar a interpretação ou a aplicação de requisitos da norma e do respetivo protocolo de auditoria.

Na prática, estes documentos podem:

  • esclarecer o significado de uma cláusula;
  • alterar ou complementar a interpretação de um requisito;
  • introduzir uma exigência adicional;
  • definir a data a partir da qual determinada alteração é obrigatória.

Por isso, devem ser tratados como documentos normativos. Não são simples notas informativas.

A própria BRCGS explica que os position statements são obrigatórios a partir da data de implementação indicada. O auditor deve avaliar os requisitos aplicáveis à data da auditoria, incluindo as atualizações entretanto publicadas.

O que mudou com o GFSI Benchmarking Requirements 2024?

A GFSI atualizou os seus requisitos de benchmarking para reforçar a consistência dos referenciais reconhecidos e elevar as expectativas sobre os sistemas de segurança alimentar.

O objetivo é garantir que os referenciais reconhecidos pela GFSI mantêm uma base técnica comum, sem eliminar as especificidades de cada norma.

O alinhamento trouxe maior clareza sobre temas como:

  • competência das pessoas envolvidas em avaliações de risco;
  • funcionamento dos programas de pré-requisitos;
  • avaliações de ameaças e vulnerabilidades;
  • segurança e defesa do produto;
  • validação e verificação de atividades de limpeza;
  • controlo de especificações e de operações subcontratadas.

A comunicação oficial da BRCGS sobre o alinhamento com o GFSI Benchmarking Requirements 2024 identifica quatro referenciais abrangidos:

  1. BRCGS Food Safety Issue 9;
  2. BRCGS Packaging Materials Issue 7;
  3. BRCGS Storage & Distribution Issue 4;
  4. BRCGS Agents & Brokers Issue 3.

As alterações aplicam-se a auditorias realizadas a partir de 10 de agosto de 2026, após um período de transição de 11 semanas.

Representação conceptual da harmonização entre referenciais BRCGS e os requisitos globais GFSI

Principais alterações por referencial BRCGS

1. BRCGS Food Safety Issue 9: atenção ao protocolo e ao calçado de proteção

Para a BRCGS Food Safety Issue 9, a atualização está refletida no documento F926 – Position Statements for Issue 9, versão 4.

A versão atualizada inclui alterações de redação nos position statements anteriores e um novo position statement relativo à cláusula 7.4.2.

Entre os pontos a considerar estão:

  • reforço da responsabilidade do local para garantir que uma auditoria não anunciada pode ser realizada de acordo com o protocolo;
  • clarificação das condições aplicáveis à mudança de organismo de certificação;
  • atualização da definição de auditoria inicial;
  • inclusão de calçado de proteção adequado, quando necessário para prevenir a contaminação do produto.

A alteração relativa à cláusula 7.4.2 deve ser analisada através de uma avaliação de risco. A tua empresa deve conseguir demonstrar que identificou os riscos associados à movimentação de pessoas, às áreas de produção e ao contacto potencial com o produto.

Não deves limitar a análise à existência de uma regra escrita. Verifica também:

  • se o equipamento disponibilizado é adequado;
  • se existe quantidade suficiente;
  • se as regras são conhecidas;
  • se a utilização é controlada;
  • se existem registos de verificação e ações corretivas.

2. BRCGS Packaging Materials Issue 7: competência, limpeza e desinfeção

Para a BRCGS Packaging Materials Issue 7, foi publicado um novo documento: P708 – Position Statement for Issue 7.

Esta atualização é particularmente relevante para empresas que fabricam materiais destinados a entrar em contacto com alimentos.

A cláusula 4.4.1 passa a explicitar que as pessoas envolvidas nas avaliações de ameaças e nos planos de defesa do produto devem ter formação adequada, de acordo com as expectativas da cláusula 6.1.

O que deve existir na prática?

  • uma equipa ou responsáveis formalmente definidos;
  • funções e responsabilidades documentadas;
  • formação adequada em defesa do produto;
  • evidência de conhecimento dos riscos específicos da operação;
  • avaliações revistas quando há alterações relevantes.

A cláusula 4.8.2 introduz ainda expectativas mais claras para as atividades de limpeza e desinfeção. Quando apropriado, devem existir procedimentos de desinfeção implementados e mantidos.

Além disso, os procedimentos de limpeza devem ser:

  • validados, para demonstrar que o método definido é eficaz;
  • verificados, para confirmar que continua a ser aplicado de forma adequada;
  • baseados nos riscos associados ao uso previsto do produto ou à atividade.

Esta distinção é importante. A validação responde à pergunta: o método é capaz de atingir o resultado pretendido?

A verificação responde a outra pergunta: o método continua a ser aplicado eficazmente no dia a dia?

Também foi incluída uma definição de “desinfeção” no glossário da norma. Deves, por isso, rever a terminologia utilizada nos procedimentos, planos e registos.

3. BRCGS Storage & Distribution Issue 4: fornecedores, defesa do produto e controlo operacional

A atualização do referencial BRCGS Storage & Distribution Issue 4 está disponível no documento SD404 – Position Statements for Issue 4.

As alterações abrangem diferentes áreas do sistema.

As especificações de fornecedores devem incluir, quando aplicável, parâmetros técnicos relevantes, como:

  • critérios químicos;
  • critérios microbiológicos;
  • parâmetros físicos;
  • requisitos relacionados com alergénios;
  • condições necessárias para garantir segurança, legalidade e qualidade.

Também devem ser reforçados os acordos com subcontratados. As condições de manuseamento, armazenamento e transporte devem estar claramente definidas e ser equivalentes ao nível de controlo aplicado pela empresa certificada.

Outro ponto relevante é a competência das pessoas envolvidas em:

  • avaliações de vulnerabilidade;
  • avaliações de ameaças;
  • planos de defesa do produto.

A atualização clarifica ainda requisitos relacionados com o equipamento, o armazenamento do equipamento e os materiais de limpeza. O equipamento deve ser adequado ao uso, mantido em condições higiénicas e armazenado de forma a minimizar riscos de contaminação.

Quando aplicável, o âmbito das operações subcontratadas passa também a incluir a irradiação. Os parâmetros de processo a monitorizar deixam de estar limitados à temperatura, podendo incluir pressão, irradiação ou outros parâmetros relevantes.

4. BRCGS Agents & Brokers Issue 3: análise de risco baseada em pré-requisitos

Para a BRCGS Agents & Brokers Issue 3, deves consultar o documento AB310 – Position Statements for Issue 3.

Uma das clarificações mais importantes está relacionada com a função dos programas de pré-requisitos.

Os programas de pré-requisitos devem estar implementados antes da realização da análise de perigos e riscos. As medidas de controlo e as atividades de monitorização existentes nesses programas devem ser documentadas e consideradas na construção e revisão do plano.

Porquê esta clarificação?

Porque a análise de risco não deve ser desenvolvida de forma isolada. Deve assentar nos controlos fundamentais já existentes na organização.

Também foram clarificadas as expectativas relativas às especificações de produto. Estas devem conter os dados necessários para garantir o uso seguro do produto, incluindo parâmetros técnicos fundamentados em legislação aplicável ou em princípios científicos adequados.

A competência das pessoas que realizam avaliações de defesa do produto e de vulnerabilidade também passa a ser explicitamente considerada.

Checklist visual para avaliação de lacunas e preparação documentada de uma auditoria BRCGS

Como fazer um gap assessment eficaz?

A resposta não deve ser uma leitura superficial dos documentos. O gap assessment deve comparar os requisitos atualizados com a realidade da tua empresa.

Recomendo que sigas estes passos.

1. Identifica o referencial aplicável

Confirma se a tua empresa trabalha com:

  • Food Safety Issue 9;
  • Packaging Materials Issue 7;
  • Storage & Distribution Issue 4;
  • Agents & Brokers Issue 3.

Depois, descarrega a versão mais recente do position statement correspondente no site oficial da BRCGS.

2. Cria uma matriz de requisitos

Para cada alteração, regista:

  • cláusula aplicável;
  • requisito atualizado;
  • evidência atualmente existente;
  • lacuna identificada;
  • responsável pela ação;
  • prazo;
  • estado de implementação.

Evita listas genéricas. Uma boa matriz deve permitir saber exatamente o que falta, quem deve agir e como será demonstrada a conformidade.

3. Avalia a competência das equipas

Confirma se as pessoas envolvidas em avaliações de ameaças e vulnerabilidades têm:

  • formação relevante;
  • experiência demonstrável;
  • conhecimento dos riscos da operação;
  • participação efetiva nas avaliações;
  • registos atualizados de competência.

A simples nomeação de uma equipa não é suficiente. É necessário demonstrar que essa equipa consegue realizar um trabalho tecnicamente consistente.

4. Revê os programas de pré-requisitos

Verifica se os programas existentes são adequados, eficazes e considerados na análise de perigos e riscos.

Analisa, entre outros:

  • limpeza e desinfeção;
  • controlo de pragas;
  • manutenção;
  • controlo de fornecedores;
  • armazenamento;
  • segurança das instalações;
  • gestão de equipamentos.

5. Valida o que depende de validação

Sempre que a limpeza seja utilizada como medida essencial de controlo, define a base técnica da validação.

Considera:

  • produto e resíduos mais difíceis de remover;
  • equipamento e zonas de maior risco;
  • método e produtos utilizados;
  • frequência;
  • critérios de aceitação;
  • métodos analíticos;
  • resultados obtidos;
  • necessidade de revalidação após alterações.

A validação deve produzir evidência objetiva. Uma assinatura numa folha de limpeza não prova, por si só, que o método é eficaz.

Que impacto podes esperar na auditoria?

Nas auditorias realizadas desde 10 de agosto de 2026, o auditor pode avaliar estes requisitos como parte integrante do referencial aplicável.

O impacto será maior nas empresas que:

  • continuam a trabalhar com versões antigas dos position statements;
  • têm avaliações de ameaça ou vulnerabilidade meramente formais;
  • não conseguem demonstrar a competência das equipas;
  • confundem validação com verificação;
  • não controlam adequadamente fornecedores e subcontratados;
  • não atualizaram procedimentos, especificações e registos.

A pergunta central será simples: o teu sistema demonstra que os requisitos estão implementados e são eficazes?

Não basta apresentar documentos. Tens de conseguir estabelecer uma ligação coerente entre requisito, risco, medida de controlo, responsável, registo e resultado.

A minha recomendação

Eu recomendo que não aguardes pela próxima auditoria para perceber se o sistema está alinhado.

Faz agora o gap assessment. Atualiza os documentos necessários. Forma as pessoas envolvidas. Recolhe evidência durante um período suficiente para demonstrar implementação e eficácia.

A BRCGS disponibiliza o resumo oficial das principais alterações nos position statements. Usa esse documento como ponto de partida, mas consulta sempre o position statement completo aplicável à tua empresa.

Se precisares de apoio para interpretar os requisitos, estruturar a análise de lacunas ou preparar a tua equipa, consulta a oferta da Quala – Formação em Segurança Alimentar.

Escolhe a formação adequada, envolve as pessoas certas e começa já a preparar evidência objetiva.

Preparação técnica e verificação de evidências antes de uma auditoria BRCGS

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Catarina Quina Ribeiro

Auditora, consultora e formadora em segurança alimentar há 23 anos. Mais de 1000 auditorias em fábricas portuguesas.

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