O Dia Mundial da Segurança Alimentar já passou. Agora é altura de continuar o trabalho.

No rescaldo do Dia Mundial da Segurança Alimentar, celebrado a 7 de junho, vale a pena recordar uma mensagem essencial que todos nós, profissionais do setor, devemos carregar: a segurança alimentar não é um evento anual, nem uma campanha de um dia. É uma responsabilidade diária, permanente e contínua.

Como auditora e formadora, vejo muitas vezes o entusiasmo crescer em torno desta data. É fantástico ver a sensibilização aumentar! No entanto, o meu papel é garantir que esse entusiasmo se transforme em processos robustos nos outros 364 dias do ano. Afinal, as bactérias e os perigos químicos não tiram férias nem respeitam calendários comemorativos.

O Peso dos Números: Um Alerta Global

Os dados recentemente divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para 2026 são um alerta que não podes ignorar. Se trabalhas na gestão da qualidade ou és dono de uma empresa agro-industrial, estes números devem servir como o teu principal motivador para a excelência.

Todos os anos, os alimentos inseguros são responsáveis por cerca de 866 milhões de casos de doença e 1,5 milhões de mortes em todo o mundo. Já paraste para pensar no que isto significa? É quase uma em cada nove pessoas a adoecer anualmente por algo que deveria nutri-las.

Entre os grupos mais vulneráveis encontram-se as crianças com menos de cinco anos. Elas representam apenas 9% da população mundial, mas sofrem quase um terço de todas as doenças de origem alimentar. Como mãe e profissional, este dado toca-me profundamente e reforça a urgência do nosso trabalho.

Perigos Invisíveis: O Desafio Químico

As infeções provocadas por bactérias, vírus e parasitas continuam a representar a maioria dos casos. No entanto, existe um outro problema muitas vezes menos visível, mas igualmente devastador: a contaminação química dos alimentos.

Análise laboratorial para deteção de contaminantes químicos em alimentos

Segundo a OMS, 73% das mortes associadas aos alimentos contaminados estão relacionadas com perigos químicos, como o arsénio inorgânico e o chumbo. Estas substâncias podem aumentar o risco de doenças cardiovasculares, cancro e provocar problemas neurológicos permanentes, especialmente em crianças.

Na nossa atividade de consultoria e auditoria, insistimos muito na verificação das matérias-primas e no controlo rigoroso de fornecedores. Não basta olhar para o que acontece dentro da tua fábrica; é preciso olhar para trás, para a origem, e garantir que o solo e a água não estão a introduzir estes perigos silenciosos na tua cadeia.

A Segurança Alimentar Constrói-se nos Detalhes

Estes números servem sobretudo para recordar uma realidade simples: a segurança alimentar depende das decisões tomadas todos os dias, em todas as etapas da cadeia alimentar. Não é um conceito abstrato; é a soma de pequenas ações consistentes.

A segurança alimentar depende de:

  • Qualidade da água utilizada: A água é o ingrediente mais comum e o maior veículo de contaminação se não for controlada.
  • Boas práticas de higiene: Isto é o básico, mas o básico falha se não houver cultura.
  • Limpeza e desinfeção eficazes: Não basta "parecer" limpo; tem de estar microbiologicamente seguro.
  • Controlo das temperaturas: Onde a monitorização falha, os microrganismos multiplicam-se.
  • Prevenção de contaminações cruzadas: Um dos maiores desafios em auditorias de referenciais como BRCGS ou IFS. Podes saber mais sobre como evitar isto na nossa formação específica sobre contaminações cruzadas.
  • Formação dos colaboradores: O elo mais forte ou mais fraco da tua corrente.
  • Manutenção dos equipamentos: Equipamentos mal mantidos tornam-se nichos de contaminação.
  • Cultura de segurança alimentar: O "clima" da organização que dita o que se faz quando ninguém está a ver.

A Higiene é Inegociável: A Regra do "Zero Adornos"

Materiais de auditoria e controlo de higiene numa bancada de inox

Falando em detalhes, há algo que nunca me canso de repetir nas minhas auditorias e formações: a aparência do operador é o espelho do rigor da empresa.

Na indústria alimentar, a política de touca total (cobrindo todo o cabelo, sem exceções!) é obrigatória. Mas não ficamos por aqui. É imperativo proibir terminantemente o uso de maquiagem e de qualquer tipo de adorno — brincos, anéis, pulseiras ou relógios. Porquê? Porque um brinco que cai ou um resíduo de verniz de unhas pode ser o corpo estranho que destrói a confiança do teu cliente ou, pior, causa um acidente ao consumidor.

Além disso, a face deve estar limpa: barbas não são permitidas sem proteção adequada (e mesmo com proteção, o risco aumenta), e o foco deve ser sempre a assepsia total. Se queres atingir padrões internacionais de excelência, estes pontos não são sugestões; são requisitos críticos.

Certificação: Um Meio, Não um Fim

Nenhuma certificação (BRCGS, IFS, FSSC 22000), auditoria ou inspeção consegue garantir alimentos seguros se estas práticas não forem aplicadas de forma consistente no dia a dia.

Muitas empresas preparam-se "para a auditoria". Eu desafio-te a preparares-te para o teu consumidor. Uma certificação BRCGS deve ser a consequência natural de um sistema que já funciona bem, e não um "verniz" aplicado uma vez por ano para passar no exame. A robustez de um sistema vê-se na consistência.

Do Fardo às Soluções: Próximos Passos

O tema escolhido pela OMS para este ano — "From burden to solutions – safe food everywhere" — reforça precisamente essa ideia: conhecer o problema é importante, mas transformar esse conhecimento em ações concretas é ainda mais fundamental.

Para as empresas do setor alimentar, isto significa investir continuamente em:

  1. Prevenção: Antecipar o perigo antes que ele entre na linha.
  2. Monitorização: Ter dados em tempo real, e não apenas papéis preenchidos no final do turno.
  3. Formação: Capacitar as pessoas para que entendam o "porquê" de cada regra.
  4. Melhoria: Aprender com os erros e as quase-não-conformidades.

Catarina Quina Ribeiro em sessão prática de formação com profissionais da indústria

Como formadora, vejo que a maior transformação acontece quando a equipa entende que a sua função vai além de manipular alimentos; eles estão a proteger a saúde pública. Se sentes que a tua equipa precisa de um "reforço de vitamina" no que toca à Cultura de Segurança Alimentar, estamos aqui para ajudar.

Conclusão: Um Compromisso para 365 Dias

O Dia Mundial da Segurança Alimentar é uma excelente oportunidade para sensibilizar, partilhar posts e fazer eventos. Mas a verdadeira diferença — aquela que salva vidas e protege o teu negócio — faz-se nos outros 364 dias do ano.

Para além do impacto na saúde pública, o impacto económico também é enorme. Estima-se que as doenças de origem alimentar provoquem perdas anuais de centenas de milhares de milhões de dólares devido à redução da produtividade e ao absentismo laboral. Investir em segurança não é um custo; é o seguro de vida da tua empresa.

Porque a segurança alimentar não se celebra apenas a 7 de junho.

Pratica-se todos os dias.

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Vermelha, Portugal