Ações Corretivas: O que são e por que a “Eficácia” é a alma do negócio

Se trabalhas na área da qualidade e segurança alimentar, é muito provável que a expressão "Ação Corretiva" faça parte do teu vocabulário diário. Mas deixa-me fazer-te uma pergunta honesta: quantas vezes sentes que estás apenas a "tapar buracos" em vez de resolver problemas de vez?

Nas minhas auditorias e formações, noto que um dos maiores desafios das empresas não é identificar o erro — isso, geralmente, todos sabemos fazer. O verdadeiro obstáculo surge no momento de garantir que o erro não volta a acontecer. É aqui que entra a avaliação da eficácia. Se não avaliamos se a solução funcionou, estamos apenas a adiar a próxima não conformidade.

Neste primeiro artigo de uma série de dois, vamos mergulhar nos conceitos fundamentais. Vamos distinguir o que é uma correção de uma ação corretiva, explorar as metodologias de análise de causa e entender por que razão a eficácia é, verdadeiramente, a alma do negócio (e da segurança alimentar!).

Correção vs. Ação Corretiva: Não são a mesma coisa!

Este é o erro clássico que encontro em muitos relatórios. Muita gente usa estes termos como sinónimos, mas eles têm funções completamente diferentes no teu sistema de gestão.

O que é a Correção?

A correção é uma ação imediata para eliminar uma não conformidade detetada. É o "remediar".

  • Exemplo: Encontraste uma poça de água no chão da produção devido a uma fuga num cano. A correção é limpar o chão e estancar a fuga temporariamente.
    A correção resolve o sintoma, mas não a doença.

O que é a Ação Corretiva?

A ação corretiva é a ação para eliminar a causa de uma não conformidade detetada, de modo a evitar a sua repetição.

  • Exemplo: No caso da fuga, a ação corretiva seria investigar por que é que o cano rompeu. Foi falta de manutenção preventiva? Foi um material de má qualidade? A ação corretiva seria, por exemplo, substituir todos os canos daquela secção por um material mais resistente ou alterar o plano de manutenção.

Percebes a diferença? A correção apaga o fogo; a ação corretiva garante que não há mais faíscas.

Profissional da indústria alimentícia realiza inspeção e anotação em checklist

A Metodologia: Como chegar à Causa Raiz?

Para que uma ação corretiva seja eficaz, tu precisas de saber exatamente por que o problema aconteceu. Se falhares na análise da causa, a tua ação corretiva será inútil. Como mentora e auditora, recomendo sempre o uso de ferramentas estruturadas. Não te fies apenas no "instinto".

1. Os 5 Porquês

É a ferramenta mais simples e, muitas vezes, a mais poderosa. Consiste em perguntar "Porquê?" sucessivamente (geralmente cinco vezes) até chegares à origem do problema.

  • Problema: Um lote de produto foi rejeitado por contaminação metálica.
    1. Porquê? Porque o detetor de metais falhou.
    2. Porquê? Porque não foi testado no início do turno.
    3. Porquê? Porque o operador não sabia que era necessário testar.
    4. Porquê? Porque não recebeu formação sobre o novo procedimento.
    5. Porquê? (Causa Raiz) Porque o plano de formação anual não foi atualizado após a compra do novo equipamento.

2. Diagrama de Ishikawa (Espinha de Peixe)

Para problemas mais complexos, onde podem existir várias causas a interagir, o Diagrama de Ishikawa é excelente. Ele obriga-te a olhar para seis categorias (os 6M):

  • Método: O procedimento está correto?
  • Mão-de-obra: As pessoas têm formação e competência?
  • Material: As matérias-primas estavam conformes?
  • Máquina: O equipamento está bem mantido e calibrado?
  • Meio-ambiente: A temperatura, humidade ou iluminação influenciaram?
  • Medição: Os dados de controlo são fiáveis?

Ao analisares cada um destes pontos, evitas a visão em "túnel" e consegues uma abordagem muito mais sistémica.

Gestores de qualidade analisam causa raiz com diagrama de Ishikawa na indústria alimentar.

A Importância para a Conformidade (BRCGS, IFS, FSSC 22000 e GLOBALG.A.P.)

Se estás a tentar obter ou manter uma certificação, já sabes que as não conformidades recorrentes são um "bilhete dourado" para uma auditoria falhada ou para uma nota negativa.

Os referenciais como o BRCGS Food Safety, a IFS Food, a FSSC 22000 e o GLOBALG.A.P. são muito claros: não basta registar que o problema foi resolvido. Tens de demonstrar que analisaste a causa e que implementaste ações para prevenir a recorrência.

Como auditora, uma das coisas que mais me preocupa é ver o mesmo problema aparecer ano após ano num sistema. Isso diz-me que o sistema de gestão da empresa é frágil. Diz-me que a cultura de segurança alimentar ainda não está madura. Se o auditor percebe que tu "fechas" não conformidades apenas para cumprir o prazo da auditoria, a confiança no teu sistema cai a pique.

Podes ler mais sobre como estas normas se interligam no meu blog.

O Risco de "Fechar por Fechar"

Eu entendo a pressão. O prazo da auditoria está a chegar, tens dezenas de não conformidades internas ou de clientes para responder e a tentação é escrever algo como "Formação realizada" ou "Equipamento reparado" e dar o assunto por encerrado.

Cuidado! Isto é um risco enorme para o negócio.

Quando "fechas por fechar", estás a:

  1. Desperdiçar Recursos: Vais gastar tempo e dinheiro em ações que não resolvem o problema real.
  2. Comprometer a Segurança: Um problema não resolvido na raiz pode levar a uma retirada de produto (recall) no futuro.
  3. Desmotivar a Equipa: Se os colaboradores veem que os problemas se repetem, deixam de acreditar no sistema de qualidade.

A avaliação da eficácia é o que separa uma empresa que "tem papéis" de uma empresa que "tem qualidade". Avaliar a eficácia significa esperar um tempo razoável após a implementação da ação e verificar: "O problema voltou a acontecer? Os indicadores melhoraram?". Só depois desta verificação é que a ação deve ser considerada encerrada.

Catarina Quina Ribeiro conduz uma sessão prática de auditoria focada em identificar não conformidades

Como podemos ajudar-te nesta jornada?

Eu sei que implementar estas metodologias no dia a dia da fábrica pode parecer burocrático e difícil de gerir. Mas garanto-te: é o investimento que mais retorno traz em termos de tranquilidade e segurança.

Se sentes que a tua equipa precisa de um empurrão para dominar estas ferramentas ou se queres elevar o nível das tuas auditorias internas, espreita as nossas formações e serviços de consultoria em quala.pt. Temos soluções práticas desenhadas por quem conhece o "chão de fábrica" e os desafios reais dos auditores.

Também podes conhecer um pouco mais sobre o meu percurso e a forma como encaro a segurança alimentar na página Sobre.

O que vem a seguir?

Agora que já clarificámos os conceitos e a importância da análise de causa, no próximo artigo vamos passar à ação! Vou partilhar contigo exemplos práticos de aplicação, desde o registo da não conformidade até à verificação final da eficácia. Vamos ver como isto se aplica a situações reais de higiene, com foco na touca bem colocada a tapar todo o cabelo, sem uso de tapa-barbas e sem qualquer tipo de brincos ou outros adornos, manutenção e controlo de processos.

Fica atento ao blog para a Parte 2 desta série!

Se tiveres dúvidas ou quiseres partilhar como geres as ações corretivas na tua empresa, não hesites em contactar-me ou consultar os nossos termos e condições para entenderes como trabalhamos.

Lembra-te: uma não conformidade é uma oportunidade disfarçada. Não a desperdices com uma solução superficial!

Até ao próximo post,
Catarina Quina Ribeiro

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