A segurança alimentar não pode depender apenas do controlo de perigos já conhecidos. A evolução tecnológica, as alterações climáticas, a globalização das cadeias de abastecimento e as novas práticas de produção estão a modificar os padrões de exposição e a criar desafios que exigem antecipação.
É precisamente neste contexto que a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) desenvolve o seu trabalho de identificação de riscos emergentes e de horizon scanning.
Analisei o relatório “2025 EFSA Annual Report on Emerging Risks and Horizon Scanning Activities”, publicado como EFSA Supporting Publication 2026:EN-10262 e aprovado em 7 de julho de 2026. Neste artigo, apresento os principais destaques e explico o que significam para as empresas do setor agroalimentar.
O que analisou a EFSA em 2025?
Em 2025, a EFSA analisou 55 temas relacionados com possíveis riscos emergentes.
Destes:
- 43 temas foram analisados em profundidade;
- 25 foram caracterizados através de briefing notes;
- A análise envolveu a Emerging Risks Exchange Network (EREN) e o Stakeholder Discussion Group on Emerging Risks (StaDG-ER);
- Alguns temas foram classificados como riscos emergentes;
- Outros ficaram a aguardar mais informação ou foram considerados abrangidos por mecanismos de controlo já existentes.
Esta distinção é importante. A identificação de um sinal ou de uma tendência não significa automaticamente que exista um risco confirmado. O objetivo do sistema é avaliar se determinado perigo novo, ou uma exposição nova ou aumentada a um perigo conhecido, pode ter relevância para a saúde humana, animal, vegetal ou ambiental.
Como se pode distinguir um risco emergente de uma preocupação já conhecida? A resposta está na alteração da exposição, na evolução do perigo ou no aparecimento de novas vulnerabilidades.
Os quatro riscos emergentes identificados
A EFSA identificou quatro riscos emergentes em 2025. Dois estão relacionados com contaminantes, um com perigos biológicos e outro com materiais de contacto com alimentos.

1. Resistência a medicamentos antiparasitários
A resistência a medicamentos antiparasitários foi associada à presença de helmintas transmitidos pelo solo em explorações pecuárias.
De acordo com o relatório, este fenómeno está relacionado com vários fatores:
- Alterações climáticas, que podem favorecer a sobrevivência e disseminação dos parasitas;
- Utilização excessiva ou inadequada de medicamentos anti-helmínticos;
- Gestão deficiente das pastagens;
- Possível seleção de resistências através de alternativas químicas com persistência ambiental.
O problema não se limita à saúde animal. A resistência pode afetar a produtividade das explorações, aumentar a dependência de tratamentos e criar pressões adicionais sobre os sistemas de produção.
Para as empresas da cadeia agroalimentar, este risco reforça a necessidade de acompanhar:
- A saúde animal e os planos veterinários dos fornecedores;
- A utilização e rotação de medicamentos;
- A gestão das pastagens;
- Os resultados de monitorização de resistências;
- A eficácia das medidas de biossegurança e prevenção.
A avaliação de fornecedores deve considerar estes fatores quando a matéria-prima tem origem em produção pecuária. Não basta verificar se existe um certificado. É necessário perceber se os controlos implementados são adequados ao risco real.
2. Ácido bongkrékico em alimentos fermentados
O segundo risco está relacionado com o ácido bongkrékico, uma toxina produzida pela bactéria Burkholderia gladioli em determinadas condições.
O tema ganhou relevância após um caso fatal ocorrido na América do Norte, associado ao consumo de milho fermentado em casa. O relatório salienta que temperaturas mais elevadas podem agravar as condições favoráveis à produção da toxina.
Este caso demonstra duas limitações importantes:
- A inspeção sensorial não é suficiente para detetar todos os perigos;
- O diagnóstico clínico pode ser difícil, sobretudo quando existe um intervalo significativo entre o consumo e o aparecimento dos sintomas.
Embora o caso analisado esteja relacionado com fermentação doméstica, a questão é relevante para qualquer atividade que utilize processos fermentativos. O controlo deve incluir a avaliação das matérias-primas, dos parâmetros de fermentação, da temperatura, do tempo e das condições de armazenamento.
A EFSA destaca ainda a importância de campanhas de sensibilização e da formação de profissionais de saúde para melhorar o reconhecimento de eventuais casos na Europa.
3. Materiais bio-based e biodegradáveis em contacto com alimentos
A utilização de materiais de origem biológica, biodegradáveis ou obtidos a partir de fontes naturais está a crescer. Esta evolução pode contribuir para objetivos de sustentabilidade, mas não significa que os materiais sejam automaticamente seguros.
A preocupação da EFSA está relacionada com a alteração dos padrões de exposição e com a dificuldade de caracterizar alguns materiais e misturas.
Entre os perigos possíveis encontram-se:
- Migração de substâncias químicas;
- Contaminantes ambientais;
- Resíduos de pesticidas;
- Alergénios;
- Substâncias não intencionalmente adicionadas;
- Misturas complexas com composição variável;
- Dados insuficientes sobre toxicidade e migração.
A avaliação de conformidade destes materiais pode ser mais exigente quando a composição não está completamente definida ou quando os dados disponíveis sobre utilização anterior são limitados.
O que deves verificar? Pelo menos:
- Declarações de conformidade atualizadas;
- Composição e especificações técnicas;
- Ensaios de migração adequados à utilização prevista;
- Restrições de contacto com diferentes tipos de alimentos;
- Condições de temperatura e tempo de contacto;
- Avaliação de potenciais alergénios e contaminantes;
- Evidência documental fornecida pelo fabricante.
A sustentabilidade da embalagem deve ser avaliada em conjunto com a segurança química e a adequação à utilização. São dimensões complementares, não alternativas.
4. Utilização ilícita de Cafodos em produtos da pesca
O quarto risco diz respeito ao uso ilícito de Cafodos, uma mistura de citrato de sódio e peróxido de hidrogénio, como conservante de peixe.
A utilização desta substância pode mascarar sinais visuais de deterioração. Consequentemente, permite que produtos deteriorados continuem a apresentar uma aparência aceitável para venda.
O perigo é particularmente relevante quando existe contaminação com histamina. Um produto pode parecer visualmente adequado, mas apresentar um perigo químico significativo.
A deteção desta prática é difícil porque o composto se decompõe rapidamente. O relatório refere, no entanto, o desenvolvimento de novos métodos, incluindo:
- Abordagens de multi-ómica;
- Espectroscopia Raman;
- Espectroscopia no infravermelho próximo (NIR);
- Monitorização reforçada de histamina;
- Avaliação de alterações proteolíticas.
Este caso demonstra a ligação direta entre fraude alimentar e segurança dos alimentos. A fraude não é apenas um problema económico ou de autenticidade. Pode alterar a qualidade do produto, dificultar a deteção da deterioração e aumentar a exposição do consumidor.
A gestão de fornecedores de produtos da pesca deve, por isso, incluir uma avaliação da vulnerabilidade à fraude, da origem dos produtos, dos resultados analíticos e da coerência entre a documentação, as características sensoriais e o histórico do fornecedor.
Contaminantes e perigos biológicos continuam no centro das preocupações
Um dos principais destaques do relatório é a concentração das preocupações em contaminantes e perigos biológicos.
Esta tendência não é surpreendente. São áreas influenciadas por múltiplos fatores:
- Alterações climáticas;
- Evolução das práticas agrícolas e pecuárias;
- Mobilidade internacional;
- Mudanças nos processos tecnológicos;
- Novos materiais e ingredientes;
- Resistência antimicrobiana e antiparasitária;
- Fragilidade de algumas cadeias de abastecimento.
Na prática, isto significa que os planos de segurança alimentar devem ser dinâmicos. Um estudo HACCP elaborado há vários anos pode continuar formalmente válido, mas deixar de refletir todos os fatores que afetam atualmente o processo.
O papel do horizon scanning
A identificação de riscos emergentes trabalha com evidência disponível. O horizon scanning procura ir mais longe: identifica drivers, tendências e sinais fracos que podem transformar-se em riscos ou oportunidades futuras.
Durante 2025, a EFSA analisou sinais associados a várias áreas.
Inovação tecnológica
Entre os exemplos encontram-se:
- Proteínas desenhadas por inteligência artificial;
- Eletrónica comestível;
- Agricultura vertical;
- Utilização de dióxido de carbono para produzir proteínas;
- Novos materiais e soluções de embalagem.
Nem todos estes temas foram classificados como riscos emergentes. Alguns permanecem em análise porque ainda existem poucos dados sobre exposição, toxicidade, degradação ou utilização comercial.
Alterações ambientais
O relatório destaca também:
- Microplásticos e a sua possível circulação na cadeia alimentar;
- Alteração das zonas agroclimáticas, com deslocação para norte;
- Pressão crescente sobre contaminantes como micotoxinas;
- Alteração da distribuição de pragas e agentes patogénicos;
- Possíveis impactos da transição energética nos solos, na água e nos ecossistemas.
Desenvolvimentos geopolíticos
A EFSA considerou ainda sinais relacionados com:
- Agroterrorismo;
- Ciberataques à cadeia de abastecimento alimentar;
- Contaminantes associados a conflitos armados;
- Contaminação de solos e águas por materiais perigosos;
- Vulnerabilidades no fornecimento de matérias-primas e aditivos.

Um novo sistema europeu de alerta para riscos químicos
Outro marco relevante foi a entrada em vigor, em 1 de janeiro de 2026, do pacote legislativo One Substance, One Assessment, incluindo o Regulamento (UE) 2025/2455.
Este enquadramento estabelece uma plataforma comum de dados sobre substâncias químicas e um sistema de monitorização e perspetiva destinado a identificar riscos químicos emergentes mais cedo.
A lógica é clara: diferentes autoridades e agências devem conseguir partilhar dados, sinais e informação de forma mais coordenada. O sistema deverá envolver, entre outras entidades, a EFSA, a ECHA, a Agência Europeia do Ambiente, a EMA e as autoridades nacionais.
Para as empresas, esta evolução significa que a informação regulamentar e científica deve ser acompanhada de forma contínua. Alterações na classificação de substâncias, novas evidências toxicológicas ou dados ambientais podem ter impacto nos materiais, ingredientes, fornecedores e processos utilizados.
Projetos e ferramentas que reforçam a antecipação
O relatório apresenta vários projetos relevantes:
- Eurocigua II, dedicado às ciguatoxinas e à avaliação integrada do risco para a saúde humana na Europa, concluído em maio de 2026;
- FFRAUD-ER, modelo computacional finalizado em 2025 para identificar incidentes de fraude alimentar que possam ser drivers de riscos emergentes;
- Projeto sobre suplementos alimentares com substâncias botânicas de preocupação, incluindo substâncias com toxicidade potencial carcinogénica, mutagénica ou tóxica para a reprodução.
A EFSA utiliza também a ferramenta EIOS — Epidemic Intelligence from Open Sources. Na área da saúde vegetal, monitoriza continuamente mais de 3.500 espécies de pragas, a partir de aproximadamente 32.000 fontes em 79 línguas.
Este volume de informação demonstra a escala do desafio. A monitorização de riscos já não pode depender exclusivamente de auditorias periódicas ou de resultados laboratoriais internos. É necessário combinar dados internos, informação científica, alertas regulamentares, tendências de mercado e informação sobre fornecedores.
O que deve fazer a indústria alimentar?
A principal conclusão que retiro deste relatório é simples: a antecipação deve fazer parte do sistema de segurança alimentar.
Recomendo que as empresas:
- Monitorizem contaminantes, perigos biológicos e alterações regulamentares relevantes para os seus produtos e processos;
- Reavaliem regularmente os fornecedores, considerando fraude, origem, histórico de conformidade e vulnerabilidades da cadeia;
- Integram os riscos emergentes no HACCP, sempre que possam afetar matérias-primas, processos, embalagens ou produtos finais;
- Revejam as especificações de materiais de contacto com alimentos, sobretudo quando são introduzidos materiais bio-based ou biodegradáveis;
- Reforcem os critérios analíticos, adaptando a monitorização aos perigos relevantes, como histamina ou contaminantes específicos;
- Formem as equipas para reconhecer alterações nos processos, nos materiais e nos riscos associados ao produto;
- Definam critérios claros de escalada, para que um sinal identificado seja avaliado e tratado antes de se transformar numa não conformidade ou num incidente.
Uma auditoria interna eficaz deve verificar não apenas se os procedimentos existem, mas também se a empresa acompanha alterações externas que possam modificar a avaliação de risco.
Se precisas de reforçar a avaliação dos teus fornecedores, consulta a formação da Quala sobre avaliação de fornecedores. Para aprofundar a integração dos riscos no sistema, podes também conhecer a formação sobre ISO 22000 e os conteúdos de rastreabilidade.
Conclusão
O relatório anual da EFSA mostra que a segurança alimentar está a tornar-se mais interdependente, mais tecnológica e mais influenciada por fatores ambientais e geopolíticos.
Os quatro riscos emergentes identificados — resistência a medicamentos antiparasitários, ácido bongkrékico, materiais bio-based e biodegradáveis em contacto com alimentos e utilização ilícita de Cafodos — têm origens diferentes. No entanto, todos demonstram a mesma necessidade: avaliar antecipadamente alterações que podem modificar a exposição, a deteção ou a gestão dos perigos.
Na minha perspetiva, esperar por um alerta, uma retirada do mercado ou uma não conformidade de auditoria não é uma estratégia suficiente. É imperativo criar mecanismos de vigilância, análise e decisão dentro da própria empresa.
Na Quala, apoio empresas agroalimentares através de consultoria, auditorias internas e formação para antecipar riscos emergentes, reforçar os sistemas HACCP e preparar a organização para requisitos regulamentares e de certificação cada vez mais exigentes. Contacta a Quala e transforma a antecipação numa prática do teu sistema de segurança alimentar.