Rastreabilidade na Prática: O que os Auditores BRCGS e IFS Realmente Procuram

Ao longo dos meus mais de 23 anos de experiência e mais de 1000 auditorias realizadas, identifiquei um padrão claro: a rastreabilidade é frequentemente o "calcanhar de Aquiles" de muitas empresas na indústria alimentar. Não porque não tenham dados, mas porque não conseguem articular esses dados de forma científica e célere sob pressão.

Quando um auditor entra na tua instalação, ele não quer apenas ver se tens etiquetas nas caixas. Ele quer provas irrefutáveis de que o teu sistema de gestão é capaz de isolar um problema em menos de quatro horas, garantindo a proteção do consumidor e a integridade da marca.

Neste artigo, vamos dissecar o que é realmente exigido nestes referenciais de topo, focando-nos na objetividade técnica e na precisão científica necessária para passar em qualquer auditoria de rastreabilidade.


BRCGS e IFS: Duas Normas, Um Objetivo Comum

Embora a BRCGS e a IFS tenham abordagens ligeiramente diferentes, no que toca à rastreabilidade, ambas convergem para pontos críticos que não permitem falhas.

Na BRCGS Issue 9, a rastreabilidade é um requisito fundamental (cláusula 3.9). Isso significa que qualquer falha grave nesta área pode levar à não certificação imediata ou à perda da mesma. O referencial exige que todos os materiais — desde matérias-primas e ingredientes até às embalagens primárias e materiais de contacto — sejam rastreáveis desde o fornecedor, passando por todas as etapas de processamento, até ao cliente final.

Já na IFS Food v8, a rastreabilidade é um KO (Knock Out) Requirement (cláusula 4.18.1). Falhar aqui é, literalmente, "chumbar" na auditoria. A IFS coloca uma tónica muito forte na complexidade: o teste de rastreabilidade deve refletir a complexidade real da tua gama de produtos, incluindo produtos com múltiplos ingredientes, reprocessamento (rework) e processos subcontratados.

Auditor a analisar registos digitais num tablet com foco na integridade dos dados

O Teste das 4 Horas: Porquê o Foco no Tempo?

Muitas vezes perguntam-me: "Catarina, se eu conseguir encontrar tudo em 5 horas, qual é o problema?". O problema é que as normas estabelecem o limite máximo de 4 horas para a conclusão total do exercício, incluindo o balanço de massa.

Este tempo não é arbitrário. Em caso de um incidente real de segurança alimentar, cada minuto conta. O auditor cronometra o exercício desde o momento em que escolhe um lote (seja de matéria-prima ou de produto acabado) até ao momento em que lhe entregas o dossiê completo.

Para seres bem-sucedido, o teu sistema deve permitir:

  1. Rastreabilidade Ascendente (Backward): Partir do produto acabado e chegar a todos os lotes de matérias-primas e embalagens primárias utilizados.
  2. Rastreabilidade Descendente (Forward): Partir de um lote de matéria-prima e identificar todos os lotes de produtos acabados para onde ela seguiu e para que clientes foram expedidos.
  3. Ligação Interna: Demonstrar claramente o que aconteceu em cada fase do processo (mistura, cozedura, embalagem, etc.).

O Balanço de Massa: A Matemática da Segurança Alimentar

Este é o ponto onde a maioria das empresas falha. Um teste de rastreabilidade sem balanço de massa é apenas uma lista de números de lote. O auditor procura uma reconciliação quantitativa.

A fórmula científica é simples, mas a sua execução exige rigor:

Entradas (Input) = Saídas (Output) + Stock + Perdas Identificadas (Resíduos, Amostras, Rework)

Gráfico técnico representando o Balanço de Massa: Matérias-primas, processamento e saídas (produto, resíduos e amostras)

Onde estão os erros comuns no Balanço de Massa?

Como auditora, vejo frequentemente discrepâncias que as empresas não conseguem explicar. Se houver uma diferença inexplicável (mesmo que pequena), o auditor pode considerar que o sistema de rastreabilidade falhou.

  • Amostras de Laboratório: Quantas gramas ou unidades foram retiradas para controlo de qualidade? Estão registadas?
  • Resíduos e Quebras: Se entraram 1000kg de farinha e saíram 950kg de produto, onde estão os outros 50kg? São perdas por humidade (perda técnica)? Estão no lixo? Foram aspirados? Deves ter dados históricos que justifiquem estas tolerâncias.
  • Reprocessamento (Rework): Este é o "buraco negro" da rastreabilidade. Se usaste produto do lote A para reincorporar no lote B, como é que isso está registado e contabilizado no balanço de ambos?

Se a tua empresa trabalha com produtos de peso variável ou processos de evaporação, é imperativo que as tolerâncias aceitáveis estejam definidas e validadas tecnicamente nos teus procedimentos.

ALCOA+: A Integridade dos Dados

A tendência atual nas auditorias BRCGS e IFS é o foco na Data Integrity. Utilizamos o acrónimo ALCOA+ para avaliar se os teus registos são de confiança:

  • A (Attributable): Quem fez o registo?
  • L (Legible): É legível? (No caso de registos manuais).
  • C (Contemporaneous): Foi registado no momento em que aconteceu?
  • O (Original): É o registo original ou uma cópia/transcrição?
  • A (Accurate): O dado é exato?

Se o auditor encontrar registos feitos "à pressa" durante a auditoria, ou se os dados parecerem fabricados, a confiança no sistema de rastreabilidade desmorona-se instantaneamente.

Gestão de inventário e armazém com leitura de códigos de barras para precisão total

Como "Blindar" o teu Sistema para a Próxima Auditoria

Para garantir que a tua empresa atinge o nível de excelência exigido para mercados internacionais, recomendo os seguintes passos:

  1. Testes de Rastreabilidade Complexos: Não testes apenas o produto mais simples. Escolhe aquele que tem 15 ingredientes e que envolve reprocessamento. A IFS v8 exige explicitamente que o teste reflita a complexidade da gama.
  2. Formação de Equipa: A rastreabilidade não é responsabilidade apenas da Qualidade. O pessoal da produção e do armazém deve compreender que um registo de lote em falta interrompe a cadeia de segurança.
  3. Digitalização: Embora o papel seja aceite, os sistemas ERP ou softwares dedicados reduzem drasticamente o erro humano e o tempo de resposta. Podes consultar o nosso artigo sobre Como atacar o requisito pela primeira vez para algumas dicas iniciais.
  4. Auditorias Internas com Olhar de Auditor Externo: Não faças auditorias internas apenas para "cumprir calendário". Se precisas de ajuda para elevar o rigor das tuas auditorias internas, podes ver como trabalhamos este tema na nossa página Sobre.

A rastreabilidade é a tua maior defesa em caso de crise. É o que permite que uma empresa recolha apenas 100 embalagens em vez de ter de recolher a produção de um mês inteiro. É ciência, é método e, acima de tudo, é o compromisso com a verdade do que acontece no chão de fábrica.

Se sentes que a tua equipa precisa de um reforço técnico sobre como implementar estes requisitos da BRCGS e IFS de forma prática e eficaz, convido-te a explorar as nossas soluções de formação.

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Um abraço e boas auditorias,
Catarina Quina Ribeiro


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