Se trabalhas na produção primária, sabes que o campo não perdoa. Entre o clima incerto, as pragas que aparecem sem aviso e a pressão para entregar produtos perfeitos, a gestão de pesticidas (ou produtos fitofarmacêuticos, se quisermos ser mais técnicos) é um dos maiores desafios que enfrentas todos os dias.
Como auditora e consultora, já vi de tudo um pouco: desde campos exemplares que parecem saídos de um manual da GLOBALG.A.P., até situações onde um pequeno erro de registo ou um intervalo de segurança ignorado deitou a perder meses de trabalho árduo. E tu não queres que isso te aconteça, pois não?
Hoje vamos falar olhos nos olhos. Vou explicar-te como podes gerir os teus tratamentos de forma a garantir que os teus produtos chegam à mesa do consumidor seguros, sem resíduos acima do permitido e, claro, com a tua certificação bem protegida.
1. A Escolha do Produto: Não é só "comprar e aplicar"
Tudo começa antes mesmo de o pulverizador sair do armazém. A escolha do produto fitofarmacêutico é o primeiro passo para o sucesso ou para o desastre.
É imperativo que utilizes apenas produtos autorizados e registados para a cultura específica em que vais trabalhar. Parece óbvio? Talvez. Mas, na correria do dia a dia, às vezes surge a tentação de usar aquele resto de produto que funcionou tão bem na vinha para dar um jeito nas maçãs. Não o faças!
Seguir as normas da produção integrada e os princípios do Manejo Integrado de Pragas (MIP) não é apenas uma questão de papelada; é uma estratégia inteligente. Ao monitorizares as pragas e definires níveis económicos de ataque, evitas aplicações desnecessárias. Menos aplicações significam menos custos, menos impacto ambiental e, acima de tudo, menos riscos de resíduos.
2. O Armário dos Fitofarmacêuticos: Organização é Segurança
O local onde guardas os teus produtos diz muito sobre a qualidade da tua gestão. Um armário de fitofarmacêuticos deve ser um local sagrado: ventilado, sinalizado, trancado e, acima de tudo, organizado.

Repara na imagem acima. É isto que eu, como auditora, adoro encontrar:
- Acesso restrito: Apenas pessoas treinadas devem ter a chave.
- Contenção de derrames: Caso um frasco se rompa, o produto não pode contaminar o solo ou a água.
- Rotulagem legível: Se o rótulo está estragado, como vais saber a dose ou o intervalo de segurança?
Manter o stock em dia e eliminar os produtos fora de validade através de canais autorizados é essencial. Lembra-te: um produto fora de validade pode não só ser ineficaz, como tornar-se mais tóxico ou instável.
3. Aplicação e Calibração: A Precisão é tua Amiga
Podes ter o melhor produto do mundo, mas se o teu equipamento estiver descalibrado, estás a deitar dinheiro fora e a colocar a segurança em risco. Uma boquilha entupida ou uma pressão mal regulada pode levar a uma sobredosagem numa zona e a uma subdosagem noutra.

Como vês, a manutenção regular é um ponto de controlo crítico. Recomendo sempre que faças a inspeção periódica obrigatória dos teus equipamentos de aplicação. Garante que quem aplica o produto utiliza o EPI (Equipamento de Proteção Individual) completo. No campo, a segurança do trabalhador é indissociável da segurança alimentar. Se não protegemos quem produz, como podemos dizer que cuidamos de quem consome?
4. A Regra de Ouro: O Intervalo de Segurança (PHI)
Se me perguntasses qual é o erro mais comum que leva a deteções de resíduos acima do LMR (Limite Máximo de Resíduos), eu responderia sem hesitar: o desrespeito pelo Intervalo de Segurança (também conhecido como Intervalo de Carência ou PHI – Pre-Harvest Interval).
Este é o tempo mínimo que deve decorrer entre a última aplicação e a colheita. É o tempo que a natureza precisa para degradar o produto até níveis seguros.
- Lê sempre o rótulo: O intervalo pode variar drasticamente de cultura para cultura, mesmo para o mesmo produto.
- Planeia a colheita: Se sabes que vais colher daqui a 7 dias, não podes aplicar um produto com carência de 14 dias. Parece simples, mas exige uma coordenação perfeita com a equipa de campo e com os teus clientes.
5. Registos e Rastreabilidade: Se não está escrito, não aconteceu
Esta é a frase que os meus formandos na Quala mais me ouvem dizer. Podes ter feito tudo bem, mas se não tens o registo da aplicação, para uma auditoria GLOBALG.A.P. ou BRCGS, tu não fizeste nada.

Hoje em dia, os cadernos de campo digitais facilitam imenso a nossa vida. No momento da aplicação, deves registar:
- A data e a parcela tratada.
- O produto comercial e o respetivo número de lote.
- A dose utilizada e o volume de calda.
- O motivo da aplicação (que praga estavas a combater?).
- O nome do operador (que deve ter formação para o efeito).
- A data prevista de colheita.
Estes registos são a tua prova de defesa. Se houver um problema de resíduos no mercado, são estes papéis (ou ficheiros) que vão mostrar que seguiu as boas práticas.
6. O Selo GLOBALG.A.P. e a Confiança do Mercado
Trabalhar para obter ou manter a certificação GLOBALG.A.P. é, muitas vezes, o que separa os produtores que conseguem exportar para os grandes retalhistas europeus daqueles que ficam limitados ao mercado local.
Esta norma exige um controlo rigoroso de resíduos químicos. Isso significa que, além de fazeres tudo bem, deves ter um plano de análises de resíduos baseado no risco. Não precisas de analisar tudo todos os dias, mas precisas de provar que o que sai da tua exploração é seguro.

O objetivo final é este: produtos bonitos, saudáveis e, acima de tudo, seguros. Quando um cliente vê que tens a certificação em dia, ele não está a comprar apenas fruta ou legumes; está a comprar confiança.
Conclusão: Vamos elevar o nível?
A gestão de pesticidas não tem de ser um "bicho-de-sete-cabeças", mas exige rigor, disciplina e muita atualização técnica. Como auditora, sinto um orgulho enorme quando entro numa exploração e vejo que o produtor domina estes conceitos e que a sua equipa está alinhada.
Se sentes que tu ou a tua equipa precisam de um reforço nestas competências, ou se queres preparar a tua empresa para uma auditoria de certificação com sucesso, estou aqui para ajudar. Na Catarina Quina Ribeiro – Segurança Alimentar, prestamos consultoria e auditoria especializada para te acompanhar em cada passo.
E não te esqueças de espreitar a Comunidade Quala. Temos formações específicas para o setor agroindustrial que te vão ajudar a estar sempre um passo à frente das exigências do mercado. Inscreve-te já na Quala e torna-te um profissional de excelência!
Ficaste com alguma dúvida sobre como calcular o intervalo de segurança ou como organizar o teu armário? Deixa um comentário ou entra em contacto comigo. Vamos conversar!
Obrigada por estares desse lado e por cuidares da segurança alimentar de todos nós. Até ao próximo artigo!